O verbo, a verba e um projeto de Nação

O verbo, a verba e um projeto de Nação

Por: Arthur Pinheiro Machado 

 

Ensinar, cuja etimologia latina remete a “insignare”, ou seja, gravar alguma coisa em alguém, deixar uma marca e educar, do latim, “educare”, conduzir para fora, ou direcionar, levar de um lugar ao outro. São duas palavras que usamos indiscriminadamente, ora como sinônimos, ora como referenciais à importância da formação cultural e intelectual de crianças e adolescentes.

 

O fato é que são complementares. Ensinar resulta na sensação da descoberta, do entendimento, da informação relevante, no início da formação do conhecimento. Educar, por sua vez, é permitir que esse conhecimento produza uma nova dimensão, prática ou intelectual, de alterar o estado inicial do indivíduo, levando-o para um outro patamar, um outro lugar mais proveitoso e fértil. Ensinar e educar têm complementaridade e igual importância.

 

No Brasil, a escola é o centro do projeto civilizacional ou a base da construção da democracia, papel esse, previsto e dado pela Constituição de 1988, na qual tal constitucionalização do ensino tem por objetivo criar um ambiente participativo entre alunos, sociedade e escola, mas, principalmente, construir um ambiente capaz de difundir valores para permear uma cultura democrática. Prova disso, são os diversos marcos regulatórios que constam em nossa Constituição, como, por exemplo, a Lei 9394/96 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que, em seu art. 12, estabelece como papel da escola “articular-se com as famílias e a comunidade, criando processos de integração da sociedade. “

 

É crítico e louvável que o Estado tenha esse objetivo mais amplo na formação do indivíduo, estimulando uma cultura participativa e com uma visão civilizatória. A despeito dos avanços sociais da última década, o país ainda vive uma desigualdade estrutural. Classes menos favorecidas, que representam a maioria do país e apoiam sua formação no sistema público de ensino (87% dos estudantes utilizam a escola pública), não têm sua realidade favorável a um modelo educacional que priorize a formação puramente humanista. A ausência de condições básicas de vida não permitem que crianças de comunidades carentes possam aderir a uma educação contemplativa.

 

Prova disso é que atualmente cerca de 8,6% das crianças entre 5 e 17 anos se encontram no mercado de trabalho, um número melhor do que em 2001 (12%) e do que em 1991 (20%), mas ainda incômodo. Se, por um lado, tal redução, estimulada pela obrigatoriedade das crianças a partir dos 6 anos, e mais recentemente dos 4, frequentarem a escola, prevista na Lei 12.796/13, somada ao Estatuto da Criança e do Adolescente e outras duras leis que objetivam a migração do trabalho para a escola, evidenciam significativo avanço na direção a ser seguida.  Por outro lado, o expressivo contingente de crianças no mercado de trabalho fornece apenas a moldura da dura realidade que se encontra.

 

Cursos técnicos ou práticos que permitam, em conjunto com o ensino teórico, a introdução de jovens no mercado de trabalho, realizados em parceria com o setor privado, seja, talvez, a única forma de atrair a atenção de nossos jovens para a relevância, importância e praticidade da educação, ao mesmo tempo em que se pavimenta um longo caminho, que resultará na redução da desigualdade financeira e intelectual, que cronicamente se observa no país.

 

Nossa realidade, porém, leva a um Estado que falha em atender critérios de acesso e qualidade educacional, sempre com restrições orçamentárias e má gestão dos recursos que recebe. O setor privado é chave, assim como a participação de toda a sociedade. Atualmente, vemos a educação como um braço do Estado, refém de programas governamentais. Fato é que o Estado não pode rivalizar com o setor público, ambos devem convergir para um plano de educação que represente um projeto de Nação. O estado deve entrar com o conteúdo educacional necessário e seu papel civilizador, o verbo; a iniciativa privada, com a concretude do ensino, as oportunidades e a mobilidade social, a verba; e nossa sociedade, de forma participativa e atuante, criando um valor acima de interesses específicos, colocando a educação como um valor nacional, para assim, termos um projeto de Nação.

Fonte: Correio Braziliense – impresso e para assinantes do dia 14 de julho de 2016.

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